domingo, 1 de novembro de 2009
Não há vagas
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão
O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras
- porque o poema, senhores,
está fechado:
"não há vagas"
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço
O poema, senhores,
não fede
nem cheira
Ferreira Gullar in Dentro da noite veloz, 1975.
sábado, 31 de outubro de 2009
As florzinhas todas
Posso imaginar tudo! Cada pensamento trança as lembranças circunscritas em minha mente. O fato de isso tudo parecer um aforismo sem fim não significa que eu não consiga escrever outras coisas, pois eu escrevo e leio. Eu leio, eu sempre li. As flores falam mais do que aquilo que dizem seus perfumes e cores, basta saber olhar, dedilhar suas linhas, tocar suas virilhas – mas será que flores têm virilhas? Devem estar acima dos joelhos.
Branca, rosada, como dia que nasce e se põe, dia após (e com) dia. Eu leio, não me basta, eu escrevo, e, como Joãozinho cabeça de vento, deixo pistas e migalhas de pão para voltar ou ser encontrado no meio da floresta. Um dia vamos esquecer tudo, os pássaros terão comido as migalhas e serviremos (apenas) de motivo de riso para as flores. Quem irá nos proteger depois disso? Eu não quererei viver preso atrás das grades sem poder tocar a ponta do sol que se põe da cor do dia que volta a nascer. O que será feito de nós?
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Deixei o vício
Assim é a narrativa que se põe a dizer sobre a vitória sobre o vício: Deixei o Vício. Agora as minhas noites não são mais devotadas ao escárnio da insônia que, ao ser produzido pelo vício, permitia – ou só permitia – rolar de um lado para outro da cama. Permanece a percepção do relógio: duas, três, quatro da manhã... Sudorese descontrolada, taquicardia, olhos vermelhos, tremura e boca seca... nada mais disso, não mais. Agora, em minha vida, não há mais espaço para pupilas dilatadas, nada intransigente, que corte noite a dentro.
Eu disse: rompi com o vício. É isso. Qual era? Maconha, crack, heroína ou cocaína? Nada disso, nunca fui dado a essas coisas. Cigarro. Não, de forma alguma. Alcool então? Tão pouco. Rompi meu vício com o café.
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Tão bem e também, como nunca foi
É de se tratar de um apelo gentil, como bom alvitre, que a memória nos pregue certas peças: olhe bem, veja se Freud não tinha, e continua a ter, suas razões, se o esquecimento não tem seus prós. Trata-se de uma defesa bem tramada pelas malhas do subconsciente (?) não se lembrar do que ocorrerá há menos de um ano, das cartas pensadas e nunca escritas, das recebidas e nunca respondidas, nas escritas e nunca enviadas. É, como bon vivant, que nós (os homens) esquecemos das cores dos teus (das mulheres) batons, dos teus esmaltes, as cores e formas das tuas lingeries... dos planos para nos perder entre florestas e pedras, musgos e lamas. Isso tudo que tão bem faz para a memória: esquecer. Esquecer para voltar a viver, como outrora, nunca foi.
É muito bom da sua parte, senhor doutor!
"É muito bom da sua parte, senhor doutor!" - Já nada há de inofensivo. As pequenas alegrias, as manifestações da vida que parecem isentas da responsabilidade do pensamento não só têm um momento de obstinada estupidez, de autocegueira insensível, mas entram também imediatamente ao serviço da sua extrema oposição. Até a árvore que floresce mente no instante em que se percepciona o seu florescer sem a sombra do espanto; até o "como é belo!" inocente se converte em desculpa da afronta da vida, que é diferente, e já não há beleza nem consolação alguma excepto no olhar que, ao virar-se para o horror, o defronta e, na consciência não atenuada da negatividade, afirma a possibilidade do melhor. É aconselhável a desconfiança perante todo o lhano, o espontâneo, em face de todo o deixa-andar que encerre docilidade frente à prepotência do existente. O malevolente subsentido do conforto que, outrora, se limitava ao brinde da jovialidade já há muito adquiriu sentimentos mais amistosos. O diálogo ocasional com o homem no comboio, que, para não desembocar em disputa, consente apenas numas quantas frases a cujo respeito se sabe que não terminarão em homicídio, é já um elemento delator; nenhum pensamento é imune à sua comunicação, e basta já expressá-lo num falso lugar e num falso acordo para minar a sua verdade. De cada ida ao cinema volto, em plena consciência, mais estúpido e depravado. A própria sociabilidade é participação na injustiça, porquanto dá a um mundo frio a aparência de um mundo em que ainda se pode dialogar, e a palavra solta, cortês, contribui para perpetuar o silêncio, pois, pelas concessões feitas ao endereçado, este é ainda humilhado [na mente] do falante. O funesto princípio que já sempre reside na condescendência desdobra-se no espírito igualitário em toda a sua bestialidade. A condescendência e o não ter-se em grande monta são a mesma coisa. Pela adaptação à debilidade dos oprimidos confirma-se, em tal fraqueza, o pressuposto da dominação e revela-se a medida da descortesia, da insensibilidade e da violência de que se necessita para o exercício da dominação. Se, na mais recente fase, decai o gesto de condescendência e se torna visível apenas a igualação, então tanto mais irreconciliavelmente se impõe em tão perfeito obscurecimento do poder a negada relação de classe. Para o intelectual, a solidão inviolável é a única forma em que ainda se pode verificar a solidariedade. Toda a participação, toda a humanidade do trato e da partilha são simples máscara da tácita aceitação do inumano. Há que tornar-se consonante com o sofrimento dos homens: o mais pequeno passo para o seu contentamento é ainda um passo para o endurecimento do sofrimento.
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ADORNO, Theodor W. in Minima Moralia (Edições 70)
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Nada mais como era antes
Nem rimas sobram para a caneta gel, nem linhas correm nas curvas dos teus olhos pequenos para dizer quem está certo, nas assertivas ou negações. Se o cinema anda fabricando literatura ou se a literatura fabrica cinema quem é que dirá? Entre navios, relatos e camareiras, passa o tempo em torno de mim.
terça-feira, 13 de outubro de 2009
O Umbigo
O teu querido umbiguinho,
Doce ninho do meu beijo
Capital do meu desejo,
Em suas dobras misteriosas,
Ouço a voz da natureza
Num eco doce e profundo,
Não só o centro de um corpo,
Também o centro do mundo!
Mário Quintana in A cor do invisível.
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Meu mundo
Não tenho mais ar de sobra, nem me resta a cólera das antigas rusgas sentimentais. O tempo é oco como um balão que sobe pela clarabóia do céu, como um violão vibrando cordas de aço, com um som assim... cor do invisível.
Meu mundo, particularidades próprias... é um mundo, não um álbum de terror.
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
Sobre o Umbigo
O umbigo do meu mundo, nasce em tua barriga. E o universo gira em torno de seus maus-tratos. Dói não saber fugir das suas armadilhas, não conhecer o caminho que vai e volta de seu umbigo e, mais que tudo, não me importar em me perder nos teus braços e contornos. Eu me disfarço no seu corpo, me escondo em suas cócegas e me espalho no seu sorriso simples e nada simplório.
Dia branco
Se você puder, estenda sua mão, toque minhas mãos, deixe-me por minha cabeça no seu colo e ver, ainda que por um instante, as estrelas dos seus olhos pequenos no céu.

